quinta-feira, janeiro 05, 2017

Ruído



O ruído incomoda-me. Qualquer ruído. Incomoda-me sempre.

O ruído de obras perto de mim, de gente a discutir alto e bom som, de multidões aglomeradas em estádios ou manifestações, … até o barulho dos desenhos animados que a minha filha vê na televisão com o volume demasiado “lá em cima” para o meu gosto. O ruído incomoda-me.


De igual forma me incomoda o outro ruído. Aquele que não se ouve, mas se vê. Ou sente. Há muito desse ruído a acontecer por estes dias. E isso incomoda-me.

Um miúdo que sofre uma bofetada supostamente do pai, um outro que recebe uma tareia descomunal supostamente do grupo de (ex-)amigos ou colegas de escola, um árbitro que recebe ameaças de morte supostamente de elementos de uma claque de clube de futebol, um casal que no verão ofereceu água a pessoas presas numa auto-estrada… supostamente para cinco meses depois conquistar riqueza numa espécie de esquema perverso de oportunismo disfarçado de bondade. Fala-se muito disto tudo sem dizer grande coisa. É ruído. Incomoda-me.

No meio de tudo isso, o meu trabalho acaba por ser envolvido (com a empresa - e o grupo de média - para que trabalho) de alguma forma numa espécie de tramóia de que ninguém tem - pelo menos, para já, parece-me - reais provas, mas que é alegadamente denunciada com “pormenores” e “detalhes”, ainda com umas quantas insinuações à mistura, de que se deveria ter investigado e esmiuçado a vida de duas pessoas que um dia tomaram uma decisão que beneficiou um sem número de outras pessoas.

Sim, entre 7 de agosto e 1 de janeiro talvez tivesse sido bom fazer o “follow-up” de uma reportagem que merecia esse acompanhamento. Pelos visto, não se fez. Porquê? Porque uma boa história nunca vencerá a “luta” com uma história má. Então se forem várias histórias más…

O que vejo (“oiço”) agora é o ruído de quem, entre agosto e janeiro nada fez para saber… mais. De quem, agora que a história boa aparentemente se tornou numa história má, aponta o dedo a quem, em janeiro, fez alguma coisa relacionada com a história boa de agosto.

Não costumo falar destas coisas - precisamente para não amplificar o ruído - mas como me vejo (in)diretamente envolvido na coisa, sinto que devo.

Sim, fiz reportagem durante todo o dia de 3ª feira (3 de janeiro) acerca do caso do casal que ficou conhecido em agosto passado por ter distribuído cerca de mil litros de água aos condutores retidos na A1 devido a um grande incêndio na zona de Estarreja. Fi-lo por indicação superior, não por proposta minha (sou um funcionário da minha empresa e, como tal, obedeço a ordens superiores; embora isso nem venha muito ao caso). De manhã na Rádio Comercial e à tarde na TVI fiz o meu trabalho. E fiz o meu trabalho como acho que devo fazer sempre, como repórter. Relatando o que vejo e o que sei na situação que presencio. Perante o que sei faço escolhas, evidentemente; e a minha escolha (que não é soberana, pois tenho superiores hierárquicos que devo consultar sempre que se justifique - e foi isso que fiz neste caso em particular) foi a de recordar e relatar a forma como um casal que ajudou muitas pessoas em agosto estava a ser ajudado por muitas pessoas em janeiro, após ter sido noticiado que estavam a passar dificuldades. Não “pedi” dinheiro ou bens para ninguém. Não divulguei publicamente qualquer NIB, ou contacto, ou forma de apoio às pessoas sobre quem reportava, porque o meu dever - escolhi eu - foi reportar. Não apoiar, ou solicitar apoios.

Quanto à questão da investigação que deveria ter sido feita ANTES de se avançar para a divulgação das necessidades do dito casal e reportada a subsequente onda de solidariedade (investigação que tantos advogam … mas tantos não fizeram, entre agosto e janeiro) - que já me foi colocada (por pessoas preocupadas comigo - o que agradeço), mas também já vi referida em vários sítios -, nunca me coube tê-la feito. Em agosto não estava no ativo (estava de licença sem vencimento e não estava a exercer o jornalismo), por isso não foi um episódio sobre o qual tenha reportado na altura, e não vivo nem trabalho sequer perto de Avanca. Também nunca me foi pedido para a fazer e, dado que nada me ligava profissionalmente ao caso e nada mais sabia sobre isso do que saiu na comunicação social e nas redes sociais, também nunca propus.

Não estou com estas linhas a defender quem quer que seja, a não ser a mim próprio e o meu brio profissional, que o tenho e defendo “com unhas e dentes”. Não sinto minimamente a minha consciência afetada com o que tenho vindo a ler desde 3ª feira.

Tenho (ao contrário do que muitos pensam, por já não terem memória - ou por nunca se terem apercebido) muita experiência em casos de ação social, que reportei continuadamente durante cerca de dois anos (entre 2002 e 2003), quando trabalhei na delegação de Coimbra da TVI. Não sou infalível na “leitura” das pessoas sobre quem reporto, mas aprendi a fazê-lo e até hoje raramente falhei na básica avaliação psicológica das pessoas que alegadamente precisam de apoio. Avaliação essa feita com recurso a conversas diretas com as pessoas em causa que foi e é, muitas vezes, a “fronteira” entre divulgar um caso que merece e não divulgar um outro que pode ser um possível “esquema”. Neste caso em concreto, a perceção que tive do casal foi positiva. Repito: não sou infalível. Mas também não posso garantir que falhei. Se isso (me) aconteceu, quando tiver certeza, di-lo-ei - com tristeza, mas sem pudor.

Até lá, aguardo que se faça a tal investigação que pelos vistos ninguém fez com tempo e agora se faz à pressa. Tudo bem. Alguma coisa daí deverá sair. Eu pedi especificamente para não ser eu a fazê-la, apenas e só porque, se o fizesse, me sentiria de alguma forma “juiz em causa própria”, posição (e sensação) que dispenso.

Tudo o que ficar entre o meu trabalho e as conclusões irrefutáveis do trabalho de quem investiga(rá) o caso - e, sobretudo, se vier sob a forma de mera opinião (ou até, como já vi, de “eu sempre achei tudo aquilo muito estranho…”) - é ruído. O ruído incomoda-me.

Mas - também aviso já - não me faz mais do que isso.

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